Reflexão nº 53 – Os quadros inquisidores

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Foto: www.morguefile.com

Me sentei diante deles naquele corredor sem fim. Todos me olhando como se houvesse algo de errado comigo. Aqueles quadros inquisidores. Era como se eles tivessem ganhado vida. Senti medo.

E se eles pulassem da parede? Viessem para cima de mim? Eu não teria como fugir. Aquela cena me soava aterrorizadora. Cercado pela arte, encurralado por ela. Qual será o estilo de matar da arte? Seria uma morte lenta ou rápida?

Em meio a esse pensamento, meu pesadelo começou a se tornar realidade. As imagens começaram a se mexer. Os desenhos que, no começo, queriam ganhar vida fora da tela agora alcançavam seu objetivo. Observei aquele nascimento paralisado, embrigado pela beleza surreal e assutadora do que acontecia. Ainda que soubesse que cada segundo contava, não consegui desviar meu olhar.

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Reflexão nº 48 – A lagarta que não queria virar borboleta

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Foto: www.morguefile.com

Mesmo sabendo que aquela mutação fazia parte do seu ciclo natural, nossa amiga lagarta estava com medo de virar borboleta. Ela já havia se habituado a ser uma lagarta. Rastejar pelos galhos, comer folhas, gostava da sua rotina e do ambiente que habitava. No fundo, era isso. Ela não queria mudanças.

Primeiro, ficar dentro de um casulo parecia algo claustrofóbico demais. “E se faltar o ar? Uma vez lá dentro, terei que esperar o processo todo acabar. Não sei se consigo”. Segundo, voar parecia uma experiência arriscada demais, que escapava do seu universo seguro. “E se eu cair em meio a um voo? Se eu não aprender a voar? Como será essa nova vida?”.

Por mais que o medo seja um componente importante para a preservação da vida, ela estava passando da conta. Naquela situação, o medo estava tomando conta dela, paralisando-a, impedindo que seguisse seu processo evolutivo, seu destino. Aquilo não era bom. Sem se dar conta disso, nossa amiga lagarta já estava dentro de um casulo, o casulo da sua própria ignorância.

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Reflexão nº 46 – “Não olhe para trás”: por uma vida sem culpa

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O que você faria se descobrisse que, há 40 anos, John Lennon te enviou uma carta? E que as palavras dele poderiam ter feito toda diferença para os rumos da sua vida. Mas você só recebeu a carta agora. Depois que se perdeu, esqueceu o caminho de casa.

Dentro desse contexto, pensei que a culpa seria um sentimento marcante em “Não Olhe Para Trás” (Danny Collins, 2015, direção de Dan Fogelman). Mas me surpreendi (meus pais assistiram ao filme e recomendaram que eu fizesse o mesmo). A carta serve como um despertar de consciência para o personagem vivido por Al Pacino, que decide resgatar sua essência e corrigir os erros do passado. O mais impressionante é que ele não se martiriza pensando nas falhas que cometeu. Apenas foca em mudar e melhorar no presente.

É claro que as coisas não são tão simples assim. Uma das frases de Al Pacino no filme é “Ninguém compra o perdão”. Além disso, tomar consciência não significa não cometer mais erros na vida. Mas a ausência da culpa em todo esse processo me pareceu algo muito sábio na mensagem que o filme transmite.

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Reflexão nº 24 – Perdendo o medo de ser feliz

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Por muito tempo, havia procurado pela chave que a tiraria daquele quarto escuro e sombrio. Mas, agora, depois de finalmente ter encontrado a chave, tinha medo de abrir a porta.

Era uma sensação que quase nem ela entendia. O que a paralisava? O medo do novo? O medo de ser feliz? Ao mesmo tempo, queria sair. Estava confusa, com sensações e pensamentos contraditórios.

Sem pensar muito, seguindo o instinto de sobrevivência, tomou coragem e abriu a porta. Mas a luminosidade a fez baixar a cabeça, os olhos quase fecharam. Depois de tanto tempo na escuridão, a luz agora incomodava sua visão. Aquela sensação quase a fazia voltar, recuar.

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Reflexão nº 15 – Um conto de suspense

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Edição Carolina Rodrigues

Capítulo 1

A água que havia invadido a pequena embarcação já molhava seus pés. A escuridão do pântano a deixava repleta de medo. Ela estava tão apavorada que irrompeu num misto de choro e gemido.

Ameaçava gritar por socorro, mas sabia que ninguém ia ajudá-la. No meio daquela escuridão, viu algo se mexer no lado oposto de onde estava sentada. Algo parecia ter se arrastado na superfície da água que havia no fundo da embarcação.

Ver aquele ser que não sabia o que era a deixou apavorada. O susto a fez dar um pulo para trás que fez o barco balançar. De pé, equilibrou-se, mas quase caiu na água.

Mergulhar naquele líquido pantanoso em meio à escuridão era tudo que ela não queria. Só de pensar que podia ter caído na água lhe dava vertigem.

Mas, afinal, o que havia visto se mexer? Será que não se enganara? Tinha algo realmente na outra ponta do barco?

Tentou parar de pensar naquilo e se convencer de que não era nada. Apenas a imaginação alimentada pelo medo. “Você não viu nada. Você não viu nada”. Foi o que começou a sussurrar para si mesma.

O barco seguia à deriva. Com o motor quebrado, ia conforme a leve correnteza do pântano. Às vezes, ainda esbarrava em algum galho ou vegetação. Mas nada que o fizesse parar.

Ainda assustada sobre o possível vulto, tentou fechar os olhos, levar os pensamentos para longe dali. Buscou resgatar lembranças da infância, uma tarde brincando no parque. “Isso”. Aquele pensamento começou a lhe dar uma sensação de tranquilidade.

O cansaço já era tamanho que adormeceu em meio àquela lembrança.

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Reflexão nº 12 – Liberdade: alçando voos mais altos

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Sugestão: clique no player acima antes de iniciar a leitura

Eu estava de férias do Santos FC quando subi o morro naquela tarde, tinha tempo livre para pensar e fazer o que eu quisesse por cerca de 15 dias (Muita coisa, não é mesmo?!). Naquele período, 15 dias para fazer isso era muito tempo. Tempo pra caramba!

Quando cheguei lá em cima encontrei um amigo. Foi mero acaso, pura coincidência. Ele estava fazendo uma matéria sobre voo livre. Foi assim que eu conheci o Eládio, o Vovô.

No breve papo que tive com ele naquele dia, recebi o convite para fazer um voo duplo. Eu sempre tive medo de altura, mas encarar esse medo de frente me dava um frio gostoso na barriga. O medo me puxava para aquele desafio. Significava vencer a mim mesmo. Além disso, aquela experiência parecia libertadora. Ia ao encontro da busca que eu já iniciara. Seria um momento único, eu não tinha dúvida.

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