Reflexão nº 59 – Maus pensamentos, um alien difícil de matar

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Crédito: www.morguefile.com

Eu não sei de onde ele veio, nem como apareceu. Aquela cena parecia um misto de realidade e fantasia, um desses universos paralelos para onde somos levados enquanto sonhamos.

Por mais que eu tente, não consigo me lembrar plenamente de sua forma primeira. Algo parecido com uma minhoca, mas de cor preta. Parecia um ser alienígena.

Eu sabia que aquilo não era bom, que precisava matá-lo. Talvez fossem minhas memórias de tantos filmes de ficção científica que me deixaram alerta. Me ajudaram a fazer uma leitura rápida da situação.

Sem pensar muito, pisei naquilo com meu tênis, mas, para meu desespero, ele ou ela não morreu. Aquela coisa se misturou ao meu calçado enquanto eu pisava nela. Penetrou meu cadarço, começou a se mover por dentro dele. Era simplesmente assustador.

Arranquei o tênis o mais rápido que pude, com muito medo que aquela coisa pudesse invadir meu corpo também. Se misturasse às minhas células, caísse em minha corrente sanguínea.

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Reflexão nº 53 – Os quadros inquisidores

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Foto: www.morguefile.com

Me sentei diante deles naquele corredor sem fim. Todos me olhando como se houvesse algo de errado comigo. Aqueles quadros inquisidores. Era como se eles tivessem ganhado vida. Senti medo.

E se eles pulassem da parede? Viessem para cima de mim? Eu não teria como fugir. Aquela cena me soava aterrorizadora. Cercado pela arte, encurralado por ela. Qual será o estilo de matar da arte? Seria uma morte lenta ou rápida?

Em meio a esse pensamento, meu pesadelo começou a se tornar realidade. As imagens começaram a se mexer. Os desenhos que, no começo, queriam ganhar vida fora da tela agora alcançavam seu objetivo. Observei aquele nascimento paralisado, embrigado pela beleza surreal e assutadora do que acontecia. Ainda que soubesse que cada segundo contava, não consegui desviar meu olhar.

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Reflexão nº 48 – A lagarta que não queria virar borboleta

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Mesmo sabendo que aquela mutação fazia parte do seu ciclo natural, nossa amiga lagarta estava com medo de virar borboleta. Ela já havia se habituado a ser uma lagarta. Rastejar pelos galhos, comer folhas, gostava da sua rotina e do ambiente que habitava. No fundo, era isso. Ela não queria mudanças.

Primeiro, ficar dentro de um casulo parecia algo claustrofóbico demais. “E se faltar o ar? Uma vez lá dentro, terei que esperar o processo todo acabar. Não sei se consigo”. Segundo, voar parecia uma experiência arriscada demais, que escapava do seu universo seguro. “E se eu cair em meio a um voo? Se eu não aprender a voar? Como será essa nova vida?”.

Por mais que o medo seja um componente importante para a preservação da vida, ela estava passando da conta. Naquela situação, o medo estava tomando conta dela, paralisando-a, impedindo que seguisse seu processo evolutivo, seu destino. Aquilo não era bom. Sem se dar conta disso, nossa amiga lagarta já estava dentro de um casulo, o casulo da sua própria ignorância.

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Reflexão nº 38 – Fugindo de si mesma

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Foto: morguefile.com

Durante um tempo, lutando consigo mesma para não “despertar”, não se permitia ficar sozinha. Precisava sempre de companhia mesmo para as coisas mais simples. Mas, antes de entender profundamente o que a afligia, não via isso como um problema. Achava normal. Considerava apenas um traço da sua personalidade.

Não tinha plena consciência disso, mas, no fundo, tinha medo das reflexões que pudessem lhe assombrar. Medo de se encarar de frente. Medo de se defrontar com verdades que não queria enxergar.

Correr era um dos seus hobbies favoritos. A princípio, uma corrida deve proporcionar justamente um encontro com a gente. Um momento de paz, meditação. Acontece que ela colocava um fone no ouvido e vibrava de acordo com a trilha sonora. Apenas isso. Correr era uma maneira de fugir de si mesma.

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Reflexão nº 28 – As vozes

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No começo, as vozes pareciam sem sentido, como loucos conversando. Alguém perguntava as horas e a resposta que surgia era que dia é hoje.

“O que elas dizem deve ser fruto da minha imaginação. São meros devaneios mentais”.

Era o que ele pensava.

Demorou um tempo para entendê-las. Na verdade, ele é quem andava sem sentido, não elas. Perdido, sem saber para onde ir. E tudo que elas faziam era tentar lhe dar as coordenadas.

“Acorde! Acorde!”.

Mas ele não queria despertar. Era como um adolescente que pede mais cinco minutos de sono aos pais antes de acordar para a escola. Sempre pedia mais um tempo.

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Reflexão nº 24 – Perdendo o medo de ser feliz

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Por muito tempo, havia procurado pela chave que a tiraria daquele quarto escuro e sombrio. Mas, agora, depois de finalmente ter encontrado a chave, tinha medo de abrir a porta.

Era uma sensação que quase nem ela entendia. O que a paralisava? O medo do novo? O medo de ser feliz? Ao mesmo tempo, queria sair. Estava confusa, com sensações e pensamentos contraditórios.

Sem pensar muito, seguindo o instinto de sobrevivência, tomou coragem e abriu a porta. Mas a luminosidade a fez baixar a cabeça, os olhos quase fecharam. Depois de tanto tempo na escuridão, a luz agora incomodava sua visão. Aquela sensação quase a fazia voltar, recuar.

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Reflexão nº 15 – Um conto de suspense

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Edição Carolina Rodrigues

Capítulo 1

A água que havia invadido a pequena embarcação já molhava seus pés. A escuridão do pântano a deixava repleta de medo. Ela estava tão apavorada que irrompeu num misto de choro e gemido.

Ameaçava gritar por socorro, mas sabia que ninguém ia ajudá-la. No meio daquela escuridão, viu algo se mexer no lado oposto de onde estava sentada. Algo parecia ter se arrastado na superfície da água que havia no fundo da embarcação.

Ver aquele ser que não sabia o que era a deixou apavorada. O susto a fez dar um pulo para trás que fez o barco balançar. De pé, equilibrou-se, mas quase caiu na água.

Mergulhar naquele líquido pantanoso em meio à escuridão era tudo que ela não queria. Só de pensar que podia ter caído na água lhe dava vertigem.

Mas, afinal, o que havia visto se mexer? Será que não se enganara? Tinha algo realmente na outra ponta do barco?

Tentou parar de pensar naquilo e se convencer de que não era nada. Apenas a imaginação alimentada pelo medo. “Você não viu nada. Você não viu nada”. Foi o que começou a sussurrar para si mesma.

O barco seguia à deriva. Com o motor quebrado, ia conforme a leve correnteza do pântano. Às vezes, ainda esbarrava em algum galho ou vegetação. Mas nada que o fizesse parar.

Ainda assustada sobre o possível vulto, tentou fechar os olhos, levar os pensamentos para longe dali. Buscou resgatar lembranças da infância, uma tarde brincando no parque. “Isso”. Aquele pensamento começou a lhe dar uma sensação de tranquilidade.

O cansaço já era tamanho que adormeceu em meio àquela lembrança.

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Reflexão nº 14 – Terapia de risco: um novo despertar

caminho_escadas_vegetacao_passagem_trilhaUm estalo fez o homem despertar. Como quem sai de um transe, abriu os olhos. Assustado, pensou estar sonhando. Realidade ou imaginação? A mais pura realidade, sua própria vida.

De repente, se sentiu um estranho. Se perguntou por onde tinha andado todos aqueles anos. O que tinha feito? Os sonhos de criança não se concretizaram.

Agora, já era um adulto. Pai de crianças que também sonham. Pensou nos filhos. Enxergou eles como nunca havia enxergado até então. Começou a chorar. Era um choro feliz. Estava engasgado há anos na garganta.

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