Reflexão nº 61 – GABO: a criação de Gabriel García Márquez

“Nós, os inventores de fábulas que em tudo acreditamos, nos sentimos com o direito de acreditar que ainda não é tarde para nos lançarmos na criação da utopia contrária. Uma nova e arrasadora utopia da vida onde ninguém possa decidir pelos outros até mesmo a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor e a felicidade seja possível. E onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra”, Gabriel García Márquez (trecho do discurso do Prêmio Nobel)

O telefone toca e Mercedes reitera que não seriam apenas três meses de aluguel atrasado, ainda restariam mais seis até que pudessem pagar a dívida. Em meio à ligação, coloca a mão no bocal e se volta para Gabriel García Márquez: “Eu dei minha palavra”.

É mágica a história por trás de “Cem anos de solidão”. Tão mágica quanto o próprio livro e a biografia de seu autor.

Eu já havia lido sobre essa jornada de obstinação e coragem na introdução do próprio livro, nas palavras do escritor e jornalista brasileiro Eric Nepomuceno, e pude revivê-la assistindo ao documentário “Gabo: a criação de Gabriel Garcia Marquez”.

Repetidas vezes, entrei na Netflix na esperança de encontrar o documentário.

A sugestão do nome em inglês enquanto digitava na busca me dava a esperança de que ele estava disponível nos EUA e, quem sabe, em breve fosse disponibilizado no Brasil.

O dia tão esperado finalmente chegou. E a admiração por Gabo só aumentou ainda mais.

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Reflexão nº 60 – Agosto

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Por Carol Piedade*

Não queria ser Agosto.

Agosto não tem feriado e tem 31 dias, o que o faz não cair nas graças do povo, que tem uma queda por Fevereiro e todo o espírito folião que, em geral, é tão peculiar. Não bastasse isso, Agosto traz consigo apostos cruéis (“mês do desgosto” e “mês do cachorro louco” lideram a lista).

Não gosto nem desgosto de Agosto, o mês que tem como número o símbolo do infinito e, talvez por isso demore tanto a passar. Prefiro Junho e suas festanças com quitutes gostosos e muito “rasta pé”! Sem falar que dia 13, dia de Santo Antônio, é um dos dias mais lindos do ano. Dezembro e seu toque iluminado também mora no meu coração, traz uma atmosfera delicada e de paz.

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Reflexão nº 59 – Maus pensamentos, um alien difícil de matar

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Crédito: www.morguefile.com

Eu não sei de onde ele veio, nem como apareceu. Aquela cena parecia um misto de realidade e fantasia, um desses universos paralelos para onde somos levados enquanto sonhamos.

Por mais que eu tente, não consigo me lembrar plenamente de sua forma primeira. Algo parecido com uma minhoca, mas de cor preta. Parecia um ser alienígena.

Eu sabia que aquilo não era bom, que precisava matá-lo. Talvez fossem minhas memórias de tantos filmes de ficção científica que me deixaram alerta. Me ajudaram a fazer uma leitura rápida da situação.

Sem pensar muito, pisei naquilo com meu tênis, mas, para meu desespero, ele ou ela não morreu. Aquela coisa se misturou ao meu calçado enquanto eu pisava nela. Penetrou meu cadarço, começou a se mover por dentro dele. Era simplesmente assustador.

Arranquei o tênis o mais rápido que pude, com muito medo que aquela coisa pudesse invadir meu corpo também. Se misturasse às minhas células, caísse em minha corrente sanguínea.

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Reflexão nº 58 – O Sol é para todos

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Crédito: www.morguefile.com

 Atticus, ele era muito bom…

– A maioria das pessoas é, Scout, quando enfim as conhecemos.

O Sol é para todos, Harper Lee

Levei quase 31 anos para descobrir a existência de O Sol é para todos (To Kill a Mockingbird). Cheguei ao livro por acaso (apesar de não acreditar no acaso). Navegando pela internet, me deparei com uma matéria sobre a autora norte-americana Harper Lee. Somente agora, depois de 45 anos da publicação de O Sol é para todos (1960), ela lançava seu segundo livro: Vá, coloque um vigia.

Naquele momento, começou meu namoro com o Sol é para todos, um livro de capa laranja que passei observar com carinho todas as vezes que entrava em uma livraria. O que retardou minha compra foi a leitura de Americanah, da nigeriana Chimamanda Adichie (outro romance com uma bela crítica social).

Se você é viciado em – comprar – livros, já deve ter passado por isso. A promessa de não comprar um novo livro até que o último esteja terminado.

Quando então comecei a leitura de O Sol é para todos, me senti feliz por tê-lo encontrado. Comecei a pensar que, de fato, para alguém que tinha escrito um livro como aquele, conquistando um prêmio Pulitzer, não era necessário publicar outro.

O Sol é para todos é uma leitura inspiradora sobre justiça, bondade e verdade. Sobre o quanto devemos lutar por ideais e valores ainda que o mundo esteja esvaziado deles. Um advogado (Atticus Finch) que luta para inocentar um homem negro (Tom Robinson) acusado injustamente de estuprar uma mulher branca. Scout, filha de Atticus, já adulta, nos conduz por essa história que viveu na infância.

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Reflexão nº 57 – Mais Mujicas, por favor

“As coisas mais importantes são as mais difíceis de expressar. São coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem – as palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais que isso, não? As coisas mais importantes estão muito perto de onde seu segredo está enterrado (…). E você pode fazer revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas te olharem de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse nem por que eram tão importantes que você quase chorou enquanto as estava contando. Isso é pior, eu acho. Quando o segredo fica trancado lá dentro não por falta de um narrador, mas de alguém que compreenda”, “O Corpo”, Stephen King.

Recentemente, tive a chance de assistir pela segunda vez a uma aula sobre Filosofia da História, um olhar crítico sobre o que nos é contado sobre nosso passado. Essa é uma daquelas aulas que falam com nossa alma. Vê-la de novo foi como ler, ouvir ou assistir a um clássico mais uma vez.

O clássico só melhora. Cada vez que visitamos ele, percebemos um detalhe novo, algo que havíamos esquecido e resgatamos alguma coisa, recobramos nossa consciência. Quem sabe, lembranças da alma de vidas passadas.

Quando se olha a vida em busca de sentido, evolução, a filosofia da história é um dos temas que ajuda a clarear o quebra-cabeça. E quando a gente encaixa uma peça no quebra-cabeça da vida, a luz que se abre é de beleza divina.

Ouvi um exemplo bastante simples durante a aula que me pareceu evidenciar de maneira muito clara o problema que trata a filosofia da história. Um homem sofre um acidente. Perde totalmente sua memória. Deixa de saber quem é. Perde um bem precioso, sua identidade.

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Reflexão nº 56 – “Ensaio sobre a cegueira”, a lucidez e a esperança

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(…) a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança, “Ensaio sobre a cegueira”, José Saramago

A metáfora de uma cegueira que não é física, mas da alma. E que, no fundo, é a pior cegueira que pode existir. Foi por essa reflexão de beleza sublime que me senti conduzido por Saramago em “Ensaio sobre a cegueira” (Companhia das Letras, 1995).

Preservar o belo dentro de uma representação trágica é, certamente, a expressão de um talento que se conecta com Deus. Saramago tem o belo dom de ajudar seu leitor a pensar com a alma partindo de uma dor que atinge o físico. Minha leitura é de que cada um daqueles personagens centrais representa um traço da personalidade humana. É como se todos eles reunidos formassem um único homem ou mulher.

A narrativa é permeada por frases e expressões sutis e profundas que nos levam – quase que pelas mãos – a uma reflexão para além das páginas. Como o pai que segura o filho pelas mãos e o ensina a atravessar a rua, numa simples e profunda demonstração de amor. Tudo isso com uma construção literária muito própria de Saramago.

Felizmente, como a história humana tem mostrado, não é raro que uma coisa má traga consigo uma coisa boa, fala-se menos das coisas más trazidas pelas coisas boas, assim andam as contradições do nosso mundo (…), “Ensaio sobre a cegueira”.

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Reflexão nº54 – A harmonia perfeita de todas as coisas

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Foto: www.morguefile.com

“A vontade é a meta que se conquista quando se superam as dificuldades com valor e inteligência”, Para se conhecer melhor, Delia Guzmán

O que mais me impressiona sobre o destino é que ele nos arrasta de maneira implacável até mesmo quando lutamos para escapar dele. Sinto que tudo que cada um de nós vive faz parte de um plano perfeito que tem como maior objetivo nosso desenvolvimento, nossa evolução enquanto seres dotados de consciência.

Nunca me pareceu que pudéssemos ser fruto do mero acaso, mas o milagre de nossa criação torna-se apenas um detalhe (fundamental) quando penso na complexidade de uma única vida durante sua estada por aqui. Cada ação que realizamos tem um desdobramento sobre o outro. Cada ação que o outro realiza esbarra em nós de alguma forma. Tudo está conectado.

A harmonia perfeita dos acontecimentos que nos cercam e nos invadem (mesmo em meio à “tragédia”) só evidencia ainda mais a existência de uma inteligência divina por trás disso. Nada se perde quando enxergamos a vida como mestra, não como inimiga (Delia Guzmán).

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Reflexão nº 53 – Os quadros inquisidores

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Foto: www.morguefile.com

Me sentei diante deles naquele corredor sem fim. Todos me olhando como se houvesse algo de errado comigo. Aqueles quadros inquisidores. Era como se eles tivessem ganhado vida. Senti medo.

E se eles pulassem da parede? Viessem para cima de mim? Eu não teria como fugir. Aquela cena me soava aterrorizadora. Cercado pela arte, encurralado por ela. Qual será o estilo de matar da arte? Seria uma morte lenta ou rápida?

Em meio a esse pensamento, meu pesadelo começou a se tornar realidade. As imagens começaram a se mexer. Os desenhos que, no começo, queriam ganhar vida fora da tela agora alcançavam seu objetivo. Observei aquele nascimento paralisado, embrigado pela beleza surreal e assutadora do que acontecia. Ainda que soubesse que cada segundo contava, não consegui desviar meu olhar.

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Reflexão nº 52 – “Antes de dormir”: memória e identidade

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“Eu sei que vou dormir esta noite e que amanhã irei acordar novamente sem saber de nada, e o mesmo no dia seguinte, e no dia depois dele, para sempre. (…) Isso não é vida, é apenas uma existência, saltar de um momento para o outro sem ter ideia do passado, nem planos para o futuro. É como penso que deve ser a vida dos animais”, Christine, “Antes de dormir”

Imagine como seria acordar todas as manhãs sem saber quem você é? Um estranho em sua própria vida. Uma casa e um marido completamente desconhecidos. Uma vida toda desconhecida. Esse é o drama da personagem Christine, protagonista do livro de suspense “Antes de dormir” (editora Record 2015).

A foto da capa, a mesma do filme inspirado na obra e estrelado por Nicole Kidman, dá o ar de suspense do livro. Essa imagem me fez pegá-lo nas mãos. Folheando a obra, ainda na livraria, me chamou atenção o fato de que o autor, S. J. Watson, escreveu o livro (publicado originalmente em 2011) durante o primeiro curso “Como escrever um romance” (iniciado em 2009) de uma escola londrina chamada Faber Academy. A informação me pareceu inspiradora para quem gosta de escrever.

Além disso, Watson trabalhou no National Health Service (Serviço Nacional de Saúde) durante anos de acordo com informações do próprio livro. O que, certamente, lhe deu alguma propriedade para tratar o tema. Na nota do autor, inclusive, Watson escreve que o livro foi inspirado na vida de diversos pacientes amnésicos.

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