Reflexão nº 53 – Os quadros inquisidores

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Foto: www.morguefile.com

Me sentei diante deles naquele corredor sem fim. Todos me olhando como se houvesse algo de errado comigo. Aqueles quadros inquisidores. Era como se eles tivessem ganhado vida. Senti medo.

E se eles pulassem da parede? Viessem para cima de mim? Eu não teria como fugir. Aquela cena me soava aterrorizadora. Cercado pela arte, encurralado por ela. Qual será o estilo de matar da arte? Seria uma morte lenta ou rápida?

Em meio a esse pensamento, meu pesadelo começou a se tornar realidade. As imagens começaram a se mexer. Os desenhos que, no começo, queriam ganhar vida fora da tela agora alcançavam seu objetivo. Observei aquele nascimento paralisado, embrigado pela beleza surreal e assutadora do que acontecia. Ainda que soubesse que cada segundo contava, não consegui desviar meu olhar.

“Corra”, disse uma voz que não sei de onde veio. Foi quando despertei outra vez. Minha vida dependia disso, escapar daqueles quadros, a arte que ganhava vida.

Levantei e comecei a correr como louco, mas aquele corredor se transformava num labirinto sem fim. Não havia saída. Comecei a perceber que algumas das pinturas já estavam quase fora da tela. Elas estavam nascendo, cada vez mais próximas de mim, quase me tocando.

O corredor sinuoso agora ficava cada vez mais estreito. Senti que era o meu fim. Não tinha mais para onde correr nem fugir. A arte me alcançara.

As pinturas começaram a me tocar de vez. Com medo, prendi a respiração e fechei os olhos. Senti cada parte do meu corpo sendo envolvida por aquelas pinturas. Elas começaram a me arrastar no que imaginei ser a direção da parede.

Quando todo aquele movimento parou, tomei coragem e abri os olhos. Me vi dentro de uma moldura, olhando para aquele corredor sem fim. Agora, eu era um quadro também. Uma pintura realista, cheia de vida e, ironicamente, inquisidora. Ansiosa pela chegada de nossa próxima vítima.

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar.

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