Reflexão nº 48 – A lagarta que não queria virar borboleta

Flower

Foto: www.morguefile.com

Mesmo sabendo que aquela mutação fazia parte do seu ciclo natural, nossa amiga lagarta estava com medo de virar borboleta. Ela já havia se habituado a ser uma lagarta. Rastejar pelos galhos, comer folhas, gostava da sua rotina e do ambiente que habitava. No fundo, era isso. Ela não queria mudanças.

Primeiro, ficar dentro de um casulo parecia algo claustrofóbico demais. “E se faltar o ar? Uma vez lá dentro, terei que esperar o processo todo acabar. Não sei se consigo”. Segundo, voar parecia uma experiência arriscada demais, que escapava do seu universo seguro. “E se eu cair em meio a um voo? Se eu não aprender a voar? Como será essa nova vida?”.

Por mais que o medo seja um componente importante para a preservação da vida, ela estava passando da conta. Naquela situação, o medo estava tomando conta dela, paralisando-a, impedindo que seguisse seu processo evolutivo, seu destino. Aquilo não era bom. Sem se dar conta disso, nossa amiga lagarta já estava dentro de um casulo, o casulo da sua própria ignorância.

Assim, nossa amiga adiou o processo o máximo que pôde. Tentava não pensar sobre o assunto, fugia dos diálogos a respeito dele e se irritava quando alguma outra lagarta insistia com ela.

“Você precisa aceitar seu destino”.

“Não tenho que aceitar nada. Tchau”.

Mas, ainda que isso possa tornar as coisas mais dolorosas ou traumáticas, quando não decidimos por nós mesmos, a vida decide por nós. Graças às leis da natureza, ela não tinha como escapar daquele processo. Agora, era uma questão de sobrevivência. Seu ciclo como lagarta estava chegando ao fim.

Mesmo contrariada, entrou no casulo reclamando, irritada com a vida por ter que seguir um caminho que não queria. Chegou a sentir raiva de si mesma por fazer parte de uma espécie que tinha que passar por aquele processo. “Por que eu?”, se perguntava com todo drama possível.

Mas, à medida que entrava dentro do casulo, percebeu que ele não era sufocante como ela imaginava. Percebeu que seu corpo, graças à sabedoria da natureza, se encaixava perfeitamente dentro dele. “Até que não é tão ruim..”.

Assim, já em paz consigo, adormeceu enquanto o casulo se fechava. Algumas horas depois, quando despertou, percebeu que tinha força suficiente para romper o casulo. Aos poucos, foi saindo de dentro dele, conhecendo melhor o próprio corpo. No movimento de despertar, as asas se abriram e se percebeu uma bela borboleta. Ficou admirada com o ser que havia se tornado. Naturalmente, bateu asas e voou. A sensação mais incrível que já havia experimentado.

Durante aquele voo, com o ar passando pelo seu corpo, se sentiu uma heroína. Vencer a si mesma era sua maior vitória. Aquela situação havia permitido que ela se conhecesse melhor. Ali, percebeu que não havia razão para ter medo de cumprir seu destino. Era apenas uma questão de alinhar vontade, intuição e ação. Tudo isso com uma pitada de fé em sua capacidade de superação.

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar. Tem dois contos – “Um Grilo pelo Azulão” e “Misericórdia” – publicados na plataforma Kindle, da Amazon.

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