Reflexão nº 53 – Os quadros inquisidores

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Foto: www.morguefile.com

Me sentei diante deles naquele corredor sem fim. Todos me olhando como se houvesse algo de errado comigo. Aqueles quadros inquisidores. Era como se eles tivessem ganhado vida. Senti medo.

E se eles pulassem da parede? Viessem para cima de mim? Eu não teria como fugir. Aquela cena me soava aterrorizadora. Cercado pela arte, encurralado por ela. Qual será o estilo de matar da arte? Seria uma morte lenta ou rápida?

Em meio a esse pensamento, meu pesadelo começou a se tornar realidade. As imagens começaram a se mexer. Os desenhos que, no começo, queriam ganhar vida fora da tela agora alcançavam seu objetivo. Observei aquele nascimento paralisado, embrigado pela beleza surreal e assutadora do que acontecia. Ainda que soubesse que cada segundo contava, não consegui desviar meu olhar.

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Reflexão nº 52 – “Antes de dormir”: memória e identidade

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“Eu sei que vou dormir esta noite e que amanhã irei acordar novamente sem saber de nada, e o mesmo no dia seguinte, e no dia depois dele, para sempre. (…) Isso não é vida, é apenas uma existência, saltar de um momento para o outro sem ter ideia do passado, nem planos para o futuro. É como penso que deve ser a vida dos animais”, Christine, “Antes de dormir”

Imagine como seria acordar todas as manhãs sem saber quem você é? Um estranho em sua própria vida. Uma casa e um marido completamente desconhecidos. Uma vida toda desconhecida. Esse é o drama da personagem Christine, protagonista do livro de suspense “Antes de dormir” (editora Record 2015).

A foto da capa, a mesma do filme inspirado na obra e estrelado por Nicole Kidman, dá o ar de suspense do livro. Essa imagem me fez pegá-lo nas mãos. Folheando a obra, ainda na livraria, me chamou atenção o fato de que o autor, S. J. Watson, escreveu o livro (publicado originalmente em 2011) durante o primeiro curso “Como escrever um romance” (iniciado em 2009) de uma escola londrina chamada Faber Academy. A informação me pareceu inspiradora para quem gosta de escrever.

Além disso, Watson trabalhou no National Health Service (Serviço Nacional de Saúde) durante anos de acordo com informações do próprio livro. O que, certamente, lhe deu alguma propriedade para tratar o tema. Na nota do autor, inclusive, Watson escreve que o livro foi inspirado na vida de diversos pacientes amnésicos.

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Reflexão nº 51 – A preguiça das tardes de chuva

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Foto: www.morguefile.com

As tardes de chuva lembram minha infância. A água escorrendo sobre o vidro da janela. O barulho da água no atrito com o chão. O cheiro de mato molhado no quintal. São tardes de preguiça sem peso na consciência.

O sol nos expulsa de casa. Me dá uma certa sensação de “culpa” passar uma tarde de sol sem ver o mundo que há para além dos limites do meu próprio mundo. Nas tardes de chuva essa sensação se esvai. Há um bom pretexto para permanecer dentro de casa. Sem fazer absolutamente nada.

Talvez, os dias de chuva, frios e nublados, não sejam por acaso. A sabedoria da natureza nos oferecendo um descanso merecido e necessário para repor as energias. Nos deixar carregados novamente para os dias de sol. Um momento para refletir sobre a razão de corrermos tanto nos dias de sol.

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Reflexão nº 50 – “O amor é cego”: só que não

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“O amor é cego” é uma daquelas expressões que, apesar de popular, não é verdadeira. Cegueira não tem nada a ver com amor. Cegueira tem a ver com paixão ou qualquer tipo de relação de dependência. Em ambos os casos, o que enxergamos é uma visão distorcida das coisas, uma idolatria irreal.

O amor não carrega essa distorção. O amor nos permite justamente enxergar o outro e a nós mesmos de maneira verdadeira e sincera (o que inclui defeitos e qualidades). Isso é o que há de mais belo no amor, essa transparência que amplia nossa consciência, nos eleva. E, como minha namorada costuma dizer, acima de tudo, estabelece uma relação de respeito.

Há alguns dias, vi um comercial da comédia “O amor é cego” (Shallow Hal, 2001, direção de Bobby Farrelly e Peter Farrelly). Ver algumas cenas do filme (estrelado por Jack Black e Gwyneth Paltrow) me fez pensar sobre isso. Eu era um adolescente quando assisti a essa comédia. Confesso que não me lembro se, naquela época, absorvi a mensagem mais importante do filme.

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Reflexão nº 49 – Homem-Aranha, intuição e uns bons “loucos” incompreendidos

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“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, tio Ben. 

Essa é uma frase clássica (e muito verdadeira) que envolve o personagem Homem-Aranha, um dos meus heróis prediletos. Um dos super poderes dele é o chamado “spider sense”, uma espécie de radar que alerta ele sobre qualquer perigo iminente. Esse senso aguçado em relação ao perigo, um pressentimento, me parece uma das características da intuição. Talvez por isso minha cabeça tenha feito essa analogia.

Sempre entendi a intuição apenas como um pressentimento. Mas, recentemente, descobri que a intuição também representa um conhecimento claro, imediato e espontâneo da verdade. Fez todo sentido. Algo que sabemos, simples assim.

Dentro desse contexto, ainda aprendi que a intuição é a morada da inteligência. E que a inteligência nada mais é do que a capacidade de discernimento, de ver com clareza as coisas como elas são. É um pensar com objetividade.

Saber disso me fez pensar por que nossa capacidade de intuição é tão sufocada pelo mundo, já que ela passa justamente pela inteligência. Quantas e quantas vezes a intuição nos aponta um caminho enquanto a lógica do mundo diz exatamente o oposto? Um olhar ingênuo da minha parte. Esperar sanidade de um mundo louco é ser tão louco quanto ele.

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Reflexão nº 48 – A lagarta que não queria virar borboleta

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Mesmo sabendo que aquela mutação fazia parte do seu ciclo natural, nossa amiga lagarta estava com medo de virar borboleta. Ela já havia se habituado a ser uma lagarta. Rastejar pelos galhos, comer folhas, gostava da sua rotina e do ambiente que habitava. No fundo, era isso. Ela não queria mudanças.

Primeiro, ficar dentro de um casulo parecia algo claustrofóbico demais. “E se faltar o ar? Uma vez lá dentro, terei que esperar o processo todo acabar. Não sei se consigo”. Segundo, voar parecia uma experiência arriscada demais, que escapava do seu universo seguro. “E se eu cair em meio a um voo? Se eu não aprender a voar? Como será essa nova vida?”.

Por mais que o medo seja um componente importante para a preservação da vida, ela estava passando da conta. Naquela situação, o medo estava tomando conta dela, paralisando-a, impedindo que seguisse seu processo evolutivo, seu destino. Aquilo não era bom. Sem se dar conta disso, nossa amiga lagarta já estava dentro de um casulo, o casulo da sua própria ignorância.

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Reflexão nº 47 – Padrinho: um chamado para (toda) a vida

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Existem famílias que escolhemos e há aquelas que nos escolhem. Nesse caso, aconteceu as duas coisas. Primeiro, eles me escolheram. Depois, eu também os escolhi quando decidi dizer “sim”.

“Rafa, qual você acha que deve ser o papel de um padrinho?”. Por uma fração de segundos, quando ouvi essa pergunta, pensei que ela podia representar algo maior. Se fosse isso, ela podia ser o último “teste” da minha avaliação para um presente que, até aquele momento, eu nem sonhava que pudesse receber.

Tentando acertar a resposta, como um aluno diante de uma chamada oral, disse algo que aprendi com meus pais: “Fazer as vezes dos pais quando eles não estão presentes”.

Minha intuição estava certa e creio que minha resposta também deve ter ajudado a confirmá-la. Aquela pergunta precedeu um dos convites mais belos que alguém pode ter o privilégio de receber. Um chamado para (toda) a vida.

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Reflexão nº 46 – “Não olhe para trás”: por uma vida sem culpa

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O que você faria se descobrisse que, há 40 anos, John Lennon te enviou uma carta? E que as palavras dele poderiam ter feito toda diferença para os rumos da sua vida. Mas você só recebeu a carta agora. Depois que se perdeu, esqueceu o caminho de casa.

Dentro desse contexto, pensei que a culpa seria um sentimento marcante em “Não Olhe Para Trás” (Danny Collins, 2015, direção de Dan Fogelman). Mas me surpreendi (meus pais assistiram ao filme e recomendaram que eu fizesse o mesmo). A carta serve como um despertar de consciência para o personagem vivido por Al Pacino, que decide resgatar sua essência e corrigir os erros do passado. O mais impressionante é que ele não se martiriza pensando nas falhas que cometeu. Apenas foca em mudar e melhorar no presente.

É claro que as coisas não são tão simples assim. Uma das frases de Al Pacino no filme é “Ninguém compra o perdão”. Além disso, tomar consciência não significa não cometer mais erros na vida. Mas a ausência da culpa em todo esse processo me pareceu algo muito sábio na mensagem que o filme transmite.

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