Reflexão nº 33 – Viagem no tempo: os homens do futuro

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Foto: www.morguefile.com

O ano é 2051. Um futuro não muito distante. A viagem no tempo se torna possível.

Os cientistas decidem que o primeiro experimento será uma viagem de volta ao passado. Nada mais justo. Presentear um dos pais da viagem no tempo fazendo dele um viajante do tempo. Dar a ele a chance de ver com os próprios olhos que suas teorias haviam se concretizado.

No passado, quando os homens do futuro se apresentaram, ele logo entendeu a mensagem. Não foi preciso muita explicação. Eufórico e ansioso, apenas falou para a mulher que teria que viajar a trabalho. Provavelmente, passaria um mês fora. Em um lugar em que estaria incomunicável. Assim, fez as malas e partiu.

Quando chegou ao futuro, em um primeiro momento, se sentiu maravilhado com tudo que viu. Mesmo para ele, a aparência daquela tecnologia era difícil de prever. Empolgado, começou a fazer o reconhecimento do local. Observar todo aquele avanço.

Mas, com o passar do tempo, a empolgação inicial deu lugar a uma análise profunda e crítica da situação. Foi ficando calado, reflexivo. Os demais cientistas respeitaram seu momento. “Deve ser o jeito dele de trabalhar”. Foi o que pensaram.

No 29º dia, véspera do seu retorno ao passado, os amigos cientistas pediram que ele escrevesse uma carta sobre as impressões do futuro. Estavam curiosos para saber o que uma das mentes mais brilhantes da história pensava daqueles tempos.

Então, naquela noite, em meio à solidão do seu quarto, colocou no papel o que havia refletido sobre os últimos dias. Na manhã do 30º dia, entregou a carta aos cientistas. Educadamente, pediram para que ele próprio fizesse as honras da leitura.

“Nobres colegas,

nunca poderei agradecer à altura por terem me proporcionado a experiência da viagem no tempo. Tal feito comprovou minhas teorias, e, acima de tudo, concretizou meus sonhos.

Confesso que não esperava encontrar os avanços que aqui presenciei. De fato, a tecnologia evolui a passos largos por aqui.

Mas temo que não poderei revelar no passado as conquistas do tempo futuro. Receio que os homens do meu tempo não estejam preparados para tudo que vivenciei nos últimos dias.

Acredito que tal experiência os levaria à loucura.

A seguir, explico minhas razões.

Me sinto sufocado.

Por aqui, nos comunicamos uns com os outros o tempo todo, mas me pergunto sobre a real qualidade dessa comunicação. É como se eu não pudesse deixar de responder ninguém em tempo real. Como se isso fosse desrespeitoso. Ao mesmo tempo, nem sempre quero responder. Às vezes, sou abordado em meio a uma reflexão ou preciso de tempo para pensar na resposta. Quando me reservo a esse direito, um pingo de culpa tenta me assombrar.

Me sinto angustiado.

Às vezes, parece haver mais pessoas falando comigo do que de fato consigo ouvir. É como se eu estivesse falando com todo mundo e com ninguém ao mesmo tempo. Para os homens do meu tempo, isso significaria receber informação para além da capacidade que eles têm de processá-la.

Me sinto atordoado.

Diálogos do mundo real e do que chamam de mundo virtual se misturam. Conversas sem começo, meio e fim. Isso deixaria os homens do meu tempo confusos. Eles acabariam perdendo a meada do fio.

Me sinto sem memória.

Recebo muita informação, mas não aprofundamos quase nada. Antes de concluir um assunto, logo pulamos para outro. Mas parece que pouco foi absorvido do anterior. Pessoas falam comigo e, no minuto seguinte, me pergunto “sobre o que mesmo estávamos falando?”.

Me sinto egoísta.

A cada dia que passa, é como se eu estivesse perdendo a capacidade de ouvir o outro. Só consigo focar em mim mesmo, meus próprios pensamentos e nas palavras que pretendo dizer assim que o outro se cala. Quando isso acontece, penso que regredi ao estágio de uma criança mimada.

Me sinto acelerado.

Meus pensamentos não param, não me dão trégua. Minha cabeça fica ligada até quando durmo. É difícil relaxar e meditar. Sempre há algo por fazer. O ócio está fora de moda por aqui.

Me sinto fragmentado.

O tempo todo recebo estímulos para fazer coisas, mas não consigo dar conta de tudo. Quando tento, é como se eu não estivesse inteiro em nada, apenas pedaços de mim. Nessas horas, já não sei mais quem sou.

Me sinto perdido.

Afinal de contas, para aonde estou caminhando nesse tempo futuro? Queria que essa tecnologia que chamam de GPS escolhesse meu destino, pois já não tenho certeza de que estou na direção certa.

Cordialmente,

A.E.”

Senhores, será que agora já posso voltar pra casa?

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar.

Leia mais:

Reflexão nº 19 – “Nosso pálido ponto azul”

Reflexão nº 17 – Um sonho sobre o mundo

Reflexão nº 8 – “Homens, mulheres & filhos”: a comunicação nossa de cada dia

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