Reflexão nº 25 – “Conhecer-se, vencer-se e conquistar-se”

DCIM100GOPRO

“Oh, do you speak in english?”

Quando você está longe de “casa”, uma maneira de quebrar o gelo é cumprimentar os surfistas que estão na água. Naquela tarde, com um sorriso no rosto e uma expressão de alívio, um norte-americano de San Diego respondeu meu “Hi” com essa frase. Nosso breve diálogo dentro da água aconteceu em uma praia chamada Popoyo, na Nicarágua, na América Central.

A gente vê Popoyo do alto de um penhasco. É um visual incrível. Apesar de termos entrado na água apenas à tarde, eu e meu parceiro de viagem Bruno Amodio já havíamos passado por ali de manhã. O mar estava começando a funcionar, mas o excesso de surfistas (crowd, na gíria do surf) nos afastou.

Àquela altura da viagem, já havíamos enfrentado crowd e mar pesado em duas praias chamadas Puerto Sandino e Punta Miramar. Chegamos a ver Sandino funcionando com 7 pés (2,1 metros). Um pouco assustador para um cara habituado a surfar ondas de, no máximo, 4 pés (1,5 metro). Por isso, naquele momento, já buscávamos paz e tranquilidade.

Assim, pensamos em procurar uma praia com menos gente na água e voltar mais tarde. Porém, na busca por uma praia com menos gente na água, acabamos enfrentando a maior “aventura” que tivemos na viagem. Nosso carro acabou atolando em uma praia chamada Astillero.

O Bruno correu pela praia toda em busca de ajuda. Naquela hora, eu ainda não tinha me dado conta do tamanho do problema que poderíamos enfrentar com a maré subindo. Quando vi, o carro estava rodeado por moradores daquele vilarejo. Todos tentando nos ajudar a resgatar o carro. Foi desesperador ver o nível da água subindo, quase ultrapassando as rodas.

Depois de inúmeras tentativas, quando já estávamos quase perdendo as esperanças, o carro se mexeu. Não sei se foi coincidência ou não, mas isso aconteceu no exato momento em que comecei a rezar enquanto empurrava a caminhonete. “Ufa!”. Respiramos aliviados, nos abraçamos e demos graças a Deus.

Quando chegamos a Popoyo para finalmente entrar na água, vínhamos exatamente desse contexto. Anestesiados, quase em estado de choque. Ao menos era assim que eu me sentia. Foi nesse clima que entrei na água.

Ao mesmo tempo, tentávamos entender como aquele mar com fundo de pedras funcionava. Lembro de surfar algumas esquerdas e tomar algumas vacas também. De qualquer forma, estávamos nos divertindo bastante. As ondas deviam estar com 4 pés (1,2 metro), algumas podendo chegar a 5 (1,5 metro) nas séries maiores.

Estava tudo praticamente perfeito, mas a onda estava ficando “crowdeada” e isso me incomodava. Por isso, comecei a pensar em surfar as direitas. Eu já havia visto elas do alto do penhasco, mas meu receio era ver apenas estrangeiros surfando aquela onda. Aquele americano para quem eu havia dito “Hi” era um deles.

Me perguntava por que os locais não pegavam as direitas? Talvez, por apenas goofies (surfistas que surfam com o pé direito na frente, como o Gabriel Medina, por exemplo) estarem na água. Nesse caso, para eles, não havia muita razão para surfarem de costas para a onda com esquerdas tão perfeitas funcionando.

Aquilo me fez lembrar de um documentário em que surfistas australianos contavam que os havaianos não surfavam backdoor (direitas), apenas pipeline (esquerdas). E que aqueles australianos haviam sido os primeiros a surfarem aquelas direitas.

Pensei sobre aquilo e decidi encarar as direitas. Levei umas boas vacas. Na última delas, cheguei a pensar que ia conseguir, mas despenquei lá de cima. O que mais me preocupava naquele momento era a possibilidade de me machucar no fundo de pedras, mas segui tentando.

Quando já estava quase desacreditado, finalmente, instintivamente, entendi a onda. É difícil explicar racionalmente, mas foi exatamente isso. Como goofy que sou, dropei aquela onda com a mão esquerda na borda, agachado, quase sem acreditar que havia conseguido, no feito pessoal que havia realizado.

Eu devo ter surfado mais umas três ou quatro ondas depois daquela, todas direitas. Sempre com a mão esquerda na borda, agachado. Depois da última, a maior delas, agradeci muito a Deus por aquele momento. Aquele era um pequeno passo para a humanidade, mas um salto para o homem. Eu estava me superando, vencendo a única competição que tem sentido, a que travamos com nós mesmos.

Saí da água cansado e realizado ao mesmo tempo. Tudo que eu queria era voltar para o hotel, tomar um bom banho, comer e dormir. Eu estava de alma lavada. Subi a encosta até o carro e me deparei com o norte-americano que havia cumprimentado na água. O carro dele e dos amigos estava estacionado ao lado do nosso.

Quando me aproximei, ele, com cerca de 40 anos, olhou pra mim e apertou a minha mão, me cumprimentando pelas ondas que eu havia dropado, especificamente as direitas. Ele falou algo sobre eu estar bem posicionado e ter pego boas ondas. Precisei viajar de Santos até a América Central para ouvir aquele elogio.

Depois daquele dia tão intenso, acredito que ouvir aquilo foi a maneira que a vida escolheu para que eu nunca mais esquecesse do feito pessoal que havia realizado na água. Surfando aquelas direitas, aquele cara e os amigos dele me encorajaram a surfá-las também. Então, aquele não era apenas um reconhecimento do mundo do surf, mas de uma referência inspiradora.

Naquela tarde, dei um passo adiante, conhecendo, vencendo e conquistando um pouco mais a mim mesmo. Entrando em sintonia comigo, me aproximando de Deus. A princípio, o mundo não mudou quando desci aquelas ondas. Mas eu mudei e, “quando a gente muda, o mundo muda com a gente” (“Até quando?”, Gabriel, o Pensador).

Aquele elogio me ajuda a guardar na memória a dimensão daquela tarde. Foi uma maneira de validar o que havia acontecido. Se algum dia a insegurança abalar minha confiança sobre o que fiz naquela tarde, aquele aperto de mão do cara de San Diego não me deixará mentir para mim mesmo.

Obs.: o título dessa reflexão é inspirado em um texto de mesmo nome da filósofa Delia Guzmán.

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar.

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