Reflexão nº 23 – O poder de parar o tempo: um gol como Pelé

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Foto: Ricardo Saibun / Divulgação Santos FC

O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé, Carlos Drummond de Andrade

Quando Neymar arrancava para um gol, sentíamos que ia marcar. A energia que ele transmitia não deixava dúvidas. Logo que ele pegava na bola e iniciava a corrida, sabíamos que aquele lance ia terminar no fundo das redes. Era como se aquele gol já existisse no “mundo das ideias” de Neymar. Ele apenas materializava o feito, tornava ele concreto aos nossos olhos.

Assim, nossa comemoração nascia no momento em que ele tocava na bola com aquela vibração que já conhecíamos. À medida que ele se aproximava do ápice, do ato final, a comemoração ia tomando corpo, crescendo. E, de dentro para fora, explodia quando a bola cruzava a linha do gol.

Neymar desafiava a física, fazia o tempo parar por um instante. Na fração de segundo seguinte, o estádio inteiro vinha abaixo.

O dom de congelar o tempo e fazer com que um momento se torne inesquecível parece andar de mãos dadas com nossa verdadeira vocação. Essa capacidade é, certamente, um dos “lances” da genialidade que cada um de nós carrega.

Naquela noite de 2011, além de fazer o tempo parar, o Menino decidiu brincar de Pelé. Lembro de ver Neymar pegando a bola quase na lateral, na direção do meio campo. Então como se fosse um personagem de videogame, começou a passar pelos marcadores. Podem ter sido três, quatro, cinco. Não deu tempo de contar. Como num passe de mágica, ele invade a área e, na saída do goleiro Felipe, do Flamengo, bate na bola com o pé direito. Um breve silêncio. Depois, a explosão. Gol! Um golaço! (Veja o gol no player abaixo)

É engraçado que, quando acompanhamos as coisas em tempo real, nem sempre temos a real noção do tamanho daquele fato. Nem sempre compreendemos no “ao vivo” que estamos acompanhando de perto a história ganhar vida diante de nós. Somos tomados por uma mistura de pensamentos e sensações até chegarmos à verdadeira compreensão.

Em parte, talvez isso aconteça porque quando alguém desempenha algo com perfeição, faz com que aquilo pareça fácil, simples. Por uma fração de segundo, a gente chega a pensar que podia fazer também. Porém, na fração de segundo seguinte, percebemos a beleza sublime do fato. O quão único ele é. Nesse momento, nos corrigimos. “Ou melhor”, é o que dizemos para nós mesmos. A gente pensa que gostaria de ser capaz de fazer também (Esquecemos que somos capazes de alcançar o sublime e congelar o tempo quando desempenhamos nossa vocação).

A partir daí, após realizar o fato, a gente começa a se perguntar como aquela pessoa fez aquilo. “Realmente aconteceu?”. “O que eu vi foi o que eu vi?”. Ficamos meio atordoados, anestesiados.

Eu demorei para entender que, naquele dia, Neymar havia tabelado com Borges. Parecia que ele apenas tinha corrido com a bola, como se ela nunca tivesse saído dos seus pés. Santo replay. A confirmação e a compreensão do que vimos. “É, realmente, aconteceu. Ah, e ele tabelou com alguém. Acho que foi o Borges”.

Meses depois, em votação pela internet promovida pela FIFA, o público escolheu o gol de Neymar como o mais bonito da temporada, o que lhe rendeu o Prêmio Púskas de 2011. Ele superou feitos de Messi, do Barcelona (Espanha), e Rooney, do Manchester United (Inglaterra).

No Santos FC, o gol rendeu a Neymar uma mais que merecida placa na Vila Belmiro.

O Menino da Vila estava crescendo, evoluindo, ganhando o mundo. E o mundo também retribuía, começava a reconhecer seu talento.

Mas e o jogo daquela noite? Aconteceu mais alguma coisa?

Bom, o Santos FC abriu 3 a 0 no placar, mas Ronaldinho Gaúcho também estava em campo. Inspirado, fez três gols. Um deles, que deixou a partida empatada em 4 a 4, saiu em cobrança de falta. Um chute rasteiro que passou por baixo da barreira e morreu no fundo das redes.

Neymar fez dois e, com uma puxadinha (uma meia bicicleta), ainda deu uma assistência para Borges.

A quem possa interessar, no final, a partida terminou 5 a 4 para o Flamengo. Um mero detalhe na noite em que Neymar marcou um gol como Pelé.

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar.

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