Reflexão nº 20 – Eu, Coutinho, Falcão e uma Libertadores

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Fotos: Clovis Fabiano / Futebol Tour

Quando saí de casa naquela quinta-feira (14/04/2011), pensava se conseguiríamos vencer o Cerro Porteño, no Paraguai, mesmo sem Neymar e Elano. Aquela partida valia a sobrevivência do Santos FC na Libertadores. O resultado podia significar um passo importante rumo às oitavas ou uma eliminação precoce na primeira fase.

Por isso, o ano do clube estava em jogo naquela noite. Aquela partida representava um divisor de águas em relação ao restante da temporada. Podia nos colocar no céu ou no inferno. Quis o destino que o jogo ainda acontecesse no mesmo dia em que o clube comemorava 99 anos de existência. Esse era nosso clima de trabalho naquele dia.

Apesar de toda essa atmosfera de ansiedade, os dias em que o Santos FC jogava fora de casa costumavam ser tranquilos para mim. Normalmente, não havia muito o que fazer até a hora do jogo. Como editor do site, eu costumava deixar tudo programado na véspera. Salvo raras exceções, tinha que fazer apenas alguns ajustes no site. Então, no mais, era esperar até a partida começar.

Mas aquela quinta-feira reservava algo de especial. Muito além do que qualquer coisa que eu pudesse imaginar.

Arnaldo Hase (meu chefe na época): “Quer mediar o Boteco da Vila de hoje?”.

Eu: “Acha que tenho esse perfil?”.

Aqui vale um parênteses. Nos jogos fora de casa, a Futebol Tour, empresa parceira do clube, realizava os chamados “Botecos da Vila”. A empresa convidava dois ídolos do Santos FC para assistirem à partida em um bar repleto de santistas. Antes do início do jogo, com a mediação de alguém, a dupla batia um papo descontraído com os torcedores presentes.

Naquele dia, Coutinho e Falcão (que, na época, atuava na equipe de Futsal do clube) eram os convidados do evento. Se eu tivesse tido muito tempo para pensar, com certeza, teria deixado a insegurança falar mais alto. Teria deixado o medo tomar conta de mim. Sem pensar muito, decidi aceitar o desafio. Encarar uma experiência que nunca tinha vivido.

Algumas horas depois do breve diálogo que tive com meu chefe, coloquei minhas inseguranças na “mochila” e parti para São Paulo ao lado de Coutinho. No carro, preocupado com a mediação, comecei a fazer perguntas para tentar arrancar histórias dele. Naquele papo, pude perceber de perto o quanto o Coutinho é um cara autêntico. Você pode até não concordar com o que ele fala (o que não foi meu caso naquele dia), mas não há como negar que ele é muito transparente e sincero.

De longe, os cabelos e o bigode grisalhos podem até fazê-lo parecer um sujeito “bravo”, mas, com cinco minutos de conversa, ele começa a dar risada das próprias histórias que conta. Pouco tempo depois de iniciar nosso papo, eu já estava rindo com ele e quase esquecera do evento, do jogo, da Libertadores e de todo o resto.

Quando chegamos ao Jockey Club, em São Paulo, local do boteco daquela noite, sentei na mesma mesa que o Coutinho. Mal sentamos e ele me convidou para tomar um chopp (Pois é, surreal!). Eu estava trabalhando, mas não podia recusar. Era o Coutinho me convidando para tomar uma cerveja. Quantas vezes na vida isso teria a chance de se repetir? Eu não podia dizer não. Por ele e por mim. De qualquer forma, tomei apenas um chopp antes do evento começar. Nem uma gota além disso.

Logo, o Falcão também chegou ao bar. Então, nos posicionamos em três cadeiras localizadas na frente do público, eu entre os dois. Conduzi aquela conversa tentando fazer com que ambos interagissem contando histórias sobre a rivalidade entre sul-americanos. Depois, mais algumas perguntas do público e, por fim, encerrei o papo puxando um coro de parabéns ao clube. Não sei como fiz isso, mas realmente aconteceu. E diante de um público de cerca de 300 pessoas.

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O Santos FC ganhou o jogo por 2 a 1. Verdade, eu tinha quase esquecido do jogo. Seguíamos vivos e confiantes na Libertadores.

Após o evento, o pessoal da produção do boteco perguntou ao Falcão se ele voltaria para Santos e se poderia nos dar uma carona. Com ar típico de vô, o Coutinho ouviu aquele diálogo e se virou para mim:

“Companheiro, você veio comigo e volta comigo. Se isso não acontecer, não vou entrar no carro e vai dar a maior m…”.

É, ele terminou com esse palavrão mesmo. Com a autenticidade de sempre. Por alguma razão, ele pensou que, talvez, eu não estivesse incluído naquela carona. Eu sabia que estava. Apenas sorri de volta para ele e, logo, o Falcão já respondeu que teria o maior prazer em nos levar.

Na volta para Santos, vim no banco de trás ouvindo os dois falarem sobre futebol. Eu interagia o mínimo possível. Afinal, eram Coutinho e Falcão falando sobre futebol. Eu não tinha quase nada a acrescentar. Apenas sorrisos de um homem que lembrava do menino que sonhava em trabalhar com jornalismo esportivo. E lá estava eu, sentado no banco de trás de um carro com Falcão e Coutinho.

Naquele dia, me tornei fã do Coutinho para além do futebol. Também fiquei orgulhoso de mim mesmo por ter me permitido viver aquele momento. Por ter tido coragem de encarar todos os meus medos e ter vivido uma experiência para a vida toda.

Tudo isso numa quinta-feira.

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar.

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