Reflexão nº 16 – Eu, a Vila e um professor

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Foto: Vinicios Oliveira

Os dias frios e nublados eram os mais difíceis de sair da cama. O sol empurra a gente para fora de casa. A chuva e o céu fechado dão preguiça, vontade de não fazer nada, passar o dia jogado no sofá.

Eu tinha um horário flexível para entrar no Santos FC e também já havia me acostumado com a rotina, disso eu não podia reclamar. O maior problema é que, como editor do site do clube, eu passava a maior parte do dia em frente a um computador. Essa rotina acabava comigo. Era sufocante. Eu precisava de ar livre, movimentar meu corpo.

Com o tempo, quase sem querer, descobri que as arquibancadas da Vila eram um bom lugar para encontrar ar puro. De lá, eu enxergava o estádio de cima, com amplitude. Ali, eu respirava, andava um pouco e pensava na vida. Olhava para o céu e relaxava. Era meu momento de meditação, reflexão.

Aos poucos, fui me sentindo cada vez mais à vontade com o estádio. Depois de um tempo, estabeleci uma relação de amizade com ele. Comecei a me abrir. Conversávamos muito, diariamente.

Como não podia ser diferente, o futebol era nosso ponto de partida, já que era nosso elo de ligação. Independente da fase do time, a Vila estava sempre serena, imune a fatores externos. Estava sempre bem com ela mesma e isso lhe bastava. Muita sabedoria. Para ela, pouco importava se o time havia vencido, perdido ou empatado.

Eu invejava aquele equilíbrio e harmonia. O meu humor variava junto com o time. Às vezes, eu chegava eufórico para falar sobre o que Neymar e Ganso haviam realizado na noite anterior. Outras, para reclamar. Ela ouvia tudo com calma e serenidade. No máximo, um sorriso.

Quando eu chegava irritado, a Vila tentava me explicar que eu precisava ter tolerância com o time. No fim das contas, as partidas se resumiam a aqueles 90 minutos entre o apito inicial e o apito final. Para os jogadores que entravam em campo, não havia segunda chance. Um gol perdido, uma bola na trave, uma falha. Um lance desperdiçado era sempre um lance desperdiçado. A única oportunidade de acertar era no próximo no lance. O futebol repete a vida. O tempo não volta.  Tenha paciência, ela me dizia.

Não era a primeira vez que eu ouvia aquela fala. Ainda na faculdade, durante uma aula de teoria da comunicação, o professor André Rittes já havia me explicado aquilo. A aula tinha um horário, dia e local para acontecer. Aquele momento era único, jamais se repetiria da mesma maneira. Uma aula de reposição nunca seria igual. Podia ser melhor ou pior, mas nunca a mesma. Ele tinha razão. A Vila também.

O professor Rittes também dizia que uma boa aula devia ser transformadora. Tínhamos que sair da sala diferentes de como havíamos entrado. Assim eram os meus diálogos com a Vila, sempre transformadores.

No meio daquele processo, eu ainda não tinha plena consciência disso, mas, quanto melhor eu compreendia o que a Vila falava, mais perto eu estava da despedida. Percebi que também tinha sido assim naquele primeiro semestre de teoria da comunicação. Quando comecei a entender com plenitude o que o Rittes falava, ele já nos preparava para o segundo semestre.

Parece que, na vida, quando aprendemos a lição, chega a hora de dar tchau. Quando um ciclo cumpre seu papel, quando melhor entendemos a mensagem que ele traz, chega a hora de iniciar uma nova etapa. É o momento de subir mais um degrau, de alçar novos voos.

E quanto mais a gente aprende, mais percebe que ainda falta muito a aprender. A gente para de olhar para os próprios pés, levanta a cabeça e vê uma longa escada, interminável, mas, ao mesmo tempo, inspiradora.

É como um jogo de videogame. Cada fase vai ficando mais complexa. E o conhecimento que adquirimos nas fases anteriores é fundamental para superar a nova fase. A própria vida vai se encarregando de criar novos desafios.

De fato, “a evolução é uma necessidade da alma” (Delia Steinberg Guzmán).

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar.

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