Reflexão nº 15 – Um conto de suspense

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Edição Carolina Rodrigues

Capítulo 1

A água que havia invadido a pequena embarcação já molhava seus pés. A escuridão do pântano a deixava repleta de medo. Ela estava tão apavorada que irrompeu num misto de choro e gemido.

Ameaçava gritar por socorro, mas sabia que ninguém ia ajudá-la. No meio daquela escuridão, viu algo se mexer no lado oposto de onde estava sentada. Algo parecia ter se arrastado na superfície da água que havia no fundo da embarcação.

Ver aquele ser que não sabia o que era a deixou apavorada. O susto a fez dar um pulo para trás que fez o barco balançar. De pé, equilibrou-se, mas quase caiu na água.

Mergulhar naquele líquido pantanoso em meio à escuridão era tudo que ela não queria. Só de pensar que podia ter caído na água lhe dava vertigem.

Mas, afinal, o que havia visto se mexer? Será que não se enganara? Tinha algo realmente na outra ponta do barco?

Tentou parar de pensar naquilo e se convencer de que não era nada. Apenas a imaginação alimentada pelo medo. “Você não viu nada. Você não viu nada”. Foi o que começou a sussurrar para si mesma.

O barco seguia à deriva. Com o motor quebrado, ia conforme a leve correnteza do pântano. Às vezes, ainda esbarrava em algum galho ou vegetação. Mas nada que o fizesse parar.

Ainda assustada sobre o possível vulto, tentou fechar os olhos, levar os pensamentos para longe dali. Buscou resgatar lembranças da infância, uma tarde brincando no parque. “Isso”. Aquele pensamento começou a lhe dar uma sensação de tranquilidade.

O cansaço já era tamanho que adormeceu em meio àquela lembrança.

Capítulo 2

Ele os seguiu e os espreitou desde que saíram do posto. Caçar as vítimas lhe dava prazer. Como as escolhia? A felicidade era o alvo perfeito. Quanto mais felizes, melhor. Tinha satisfação em saber que levava o mal até aqueles que só conheciam o bem.

Ver aquele casal feliz, sorrindo como adolescentes apaixonados, lhe fazia salivar. Aumentava seu apetite. Seu desejo de matar.

O mal habitava seu corpo há tanto tempo que parecia sempre ter sido assim. Já nem se lembrava mais do ser humano que era antes de se tornar a besta.

A metamorfose final acontecia sempre que colocava a máscara, era como rompia com o último laço de humanidade. Depois que a colocava, não havia espaço para misericórdia.

Tudo que via era o vermelho, a cor do sangue das vítimas.

Capítulo 3

Ela acordou com os primeiros raios de sol que irromperam o céu. A luz penetrou seus olhos de um jeito que até incomodou. Depois de todo cansaço que havia sentido, quando fechou os olhos na noite anterior, caiu num sono profundo.

A vida dela dera uma guinada em pouquíssimo tempo. Agora, via-se acordando em uma pequena embarcação no meio do pântano.

A água dentro e fora do barco estava turva. Ela olhou ao seu redor e percebeu um tom vermelho escuro. Esfregou os olhos para garantir que não estivesse sonhando. Aquela vermelhidão parecia sangue.

Então, notou que a água que havia dentro do barco estava da mesma cor. Era o mesmo vermelho sangue. Em um repente de susto, colocou os pés para cima, o que fez o barco mexer.

Mais uma vez, viu algo se movimentar no lado oposto. Algo boiava na água que se acumulara na proa do barco.

Tentou ignorar o que via. Parecia um pedaço de corpo humano. Um membro dilacerado. Ao realizar o que era, sentiu o estômago embrulhar. Vomitou e teve uma vertigem.

Capítulo 4

Como em todas as noites de turno extra, chegou em casa de madrugada. Estava suado, sujo. Seguindo o ritual que fazia parte da sua rotina, ia direto para a oficina que ficava na parte de trás da casa. Entrava no banheiro e tomava um banho para purificar o corpo e a alma antes de entrar dentro da própria casa.

Depois do banho, colocava uma roupa limpa com aroma de flores do campo, o cheiro do amaciante preferido usado pela esposa. Entrava na casa e ia até o quarto da filha. Cobria-a com a coberta e dava-lhe um beijo na testa, sinônimo de proteção.

Em seguida, ia para o próprio quarto. Acordava a esposa com um cafuné e beijava seu corpo da maneira que sabia que a deixava excitada. Faziam amor e depois caía em sono profundo.

Capítulo 5

O barco seguia à deriva, mas, agora, aproximava-se do que parecia ser uma das margens do rio pantanoso. Aquilo a fez respirar aliviada apesar de não saber direito onde estava. De qualquer forma, tudo que queria era deixar para trás o que havia presenciado na noite anterior.

Após uma madrugada inteira seguindo o curso do rio, não era possível que ainda estivesse perto de todo aquele horror. Aquilo a fez pensar no marido. Começou a chorar. Sentiu culpa pela morte dele. Ao mesmo tempo, sabia que o que havia acontecido estava fora do seu controle.

Então, tentou pensar em uma boa lembrança. O dia em que se conheceram. Uma tarde de primavera no campus da universidade. Ela estava sentada. Ele jogando bola com os amigos. Quis o destino que a bola fosse para perto dela. Ele se aproximou para buscar. Eles trocaram olhares e não foi preciso dizer mais nada. Ambos sorriram um sorriso de amor à primeira vista.

O barco bateu em alguma coisa. O barulho a trouxe daquele sonho de volta para o pesadelo do presente. Com medo, inclinou a cabeça para tentar ver o que era. Parecia o corpo de um animal morto ou o que restara dele. O corpo dilacerado de um animal. Quase vomitou de novo, mas, dessa vez, foi apenas ânsia.

A partir dali, sentiu um misto de nojo e medo de colocar os pés na água. O tom avermelhado da água podia significar sangue de animais. Sua imaginação a fez pensar em centenas de corpos de animais boiando. Aquilo fez seu corpo estremecer.

Capítulo 6

Como em todas as manhãs, levantava e passava no quarto da filha para acordá-la. Em seguida, ia direto para o banheiro fazer a barba. Antes de entrar no banho, a chamava do banheiro para se certificar de que ela tivesse acordado.

“Filha?!”.

“Já acordei!”.

Depois do breve diálogo que se repetia todas as manhãs, tomava um bom banho para começar o dia. Enquanto isso, a esposa descia para preparar o café.

Capítulo 7

O barco estava cada vez mais próximo da margem, cerca de 15, 20 metros. Viu areia. Parecia uma praia de água doce. Ao fundo, o que parecia ser um barraco.

Tinha que fazer uma escolha: encarar a água ou seguir à deriva sabe Deus para onde. Começou a chorar de raiva, pois sabia o que teria que fazer. Sem pensar muito, colocou-se em pé, foi até a beira do casco do barco e pulou na água.

Chorava um choro de criança. Com nojo e medo daquela água, começou a dar as primeiras braçadas. Nadou com a sensação de que aqueles 15, 20 metros fossem na verdade 100.

Tentou pensar na piscina em que aprendera a nadar. Na borda, seu pai a esperava de braços abertos. Ela, com bóia, touca e óculos, atravessava a piscina sozinha pela primeira vez. No rosto do pai, um sorriso e um coro de incentivo.

“Um novo recorde está prestes a ser quebrado, senhoras e senhores. Ela se aproxima superando todas as marcas!”.

Sentiu o braço bater na areia. Estava na margem. Apoiou os pés e sentiu o fundo. A água estava bem rasa. Saiu o mais rápido que pôde. Arrastou-se por mais alguns metros e desabou em cansaço. Enfrentar o medo lhe dava por uma fração de segundo a sensação de superação. A adrenalina se espalhava pela sua corrente sanguínea.

Deitou com as costas no chão e olhou para o céu. O sol seguia iluminando e esquentando o dia. Sentiu o rosto arder. Sentou e deu um longo suspiro.

Após recuperar o fôlego, levantou e andou em direção ao barraco. Ao se aproximar, gritou:

“Olá, tem alguém aí?!”

Ninguém retornou seu chamado. Aproximou-se. A porta estava entreaberta. Um pouco de força e ela abriu completamente. Ao entrar, viu uma mesa, uma pia, alguns armários e uma cadeira.

Em um tom mais baixo, seguiu dizendo:

“Olá, alguém aí?!”.

Andando pelo barraco, passou por um banheiro e chegou a um cômodo que parecia ser um quarto. Estava muito escuro. Em meio à penumbra, viu uma cama. Estava vazia.

Não havia ninguém na casa. E, pelo estado de poeira das coisas, há muito tempo. Com fome, abriu os armários à procura de algo para comer. Encontrou uma lata de feijão e outra de frutas em calda. Na gaveta, achou um abridor. Abriu as duas latas em pé. Sentou e comeu.

Após se alimentar, saiu do barraco ainda na esperança de encontrar alguém. Atrás do casebre abandonado, viu um caminho que adentrava a mata. A vegetação já estava crescida, mas em tamanho diferente. Certamente, era o caminho usado por quem quer que ali tivesse morado. Quem sabe, um caminho de volta à civilização.

Capítulo 8

Depois do banho, colocava o uniforme e descia para o café da manhã em família. Antes de toda refeição, uma oração para agradecer por aquele alimento.

Ovos mexidos, pão, frutas, café, leite e achocolatado eram o menu de todas as manhãs. Sorriam, brincavam e se alimentavam como uma família feliz. Tão perfeita quanto as dos comerciais de TV.

Depois de comer, despedia-se da esposa com três beijos, um na testa e outro na bochecha esquerda. O último era um selinho.

A filha gritava “Tchau, mãe!”, pegava a mochila e partia em disparada para o carro.

Ele ia logo em seguida. Abria a porta, sentava e olhava para garantir que a filha tivesse colocado o cinto de segurança. Como em todas as manhãs, ela já havia feito isso. Ele olhava para ela com aprovação, ligava o carro e saía para mais um dia de trabalho. No caminho, apenas uma pausa rápida para deixar a filha na escola.

Capítulo 9

Entrou na trilha pensando no marido. Sentiu como se ele estivesse guiando seus passos, soprando no seu ouvido que devia seguir em frente. Emocionou-se.

Teve um flash de lembrança sobre a primeira trilha que fizeram, o sorriso dele a guiando pelo caminho. O amor que fizeram na madrugada enquanto acampavam.

De repente, a lembrança da noite anterior. O ataque. O que era aquele ser que havia pulado no marido? A escuridão atrapalhara sua visão. Talvez fosse um homem de máscara. Uma máscara macabra. Não houve tempo de fazer nada.

À distância, viu aquele ser em cima do marido deitado. Ao sentir sua presença, ele apenas levantou a cabeça. Nesse momento, eles se olharam. Ela pôde sentir a maldade emanando daquele olhar. Em choque, paralisou.

Com as últimas forças que tinha, o marido gritou:

“Corra!”.

Havia muito sangue ao redor dele, ao menos era o que parecia toda aquela poça escura. Ela soube naquele momento que não podia fazer mais nada.

A besta não interrompeu o ataque. Pelo contrário, o grito do marido pareceu tornar a agressão ainda mais violenta e feroz. Ela correu o máximo que pôde. Sabia que seria a próxima quando ele terminasse o ataque.

A lembrança quase a fez congelar, mas o sol não permitiu que entrasse em transe. Brilhando com toda sua força e imponência, castigava-a. De pele clara, seu rosto e braços ardiam. A boca estava ressecada. Aquela caminhada parecia não ter fim.

Quando já não aguentava mais andar, começou a avistar o que parecia um pequeno vilarejo. Lembrou do incentivo que ouvia do marido quando estavam fazendo trilha juntos: “Vamos, falta pouco”.

Aquilo pareceu recarregar suas energias. Aumentou o passo. Começou a avistar crianças brincando. Correu. Ao se aproximar, pensou estar vendo o próprio filho.

Lembrou-se dela e do marido brincando com o filho no jardim de casa. Mais uma boa lembrança para manter viva a esperança de sair daquele lugar e voltar para casa.

Quando chegou bem perto, o menino, que estava de costas, virou e a olhou nos olhos. Ele não era seu filho. Era apenas sua imaginação. Ela estendeu os braços e, quando percebeu isso, desmaiou.

Capítulo 10

Como em todas as manhãs, após deixar a filha na escola, seguia para o trabalho. No caminho, pensou sobre a noite anterior. Sentia-se orgulhoso por ter efetuado um ataque tão preciso, mortal. Sentia que estava aperfeiçoando sua técnica, aproximando-se da perfeição.

A lembrança da cena fazia com que sorrisse. O sofrimento do homem, o olhar assustado da mulher. Depois, um esquartejamento preciso, como um açougueiro. Mais um trabalho bem feito, uma obra prima. Cada vez mais belo.

Depois da reflexão, sentiu-se triste por não poder compartilhar seu feito com ninguém. O mundo não entenderia seu trabalho. A falta de reconhecimento o deprimia. Sentia-se como um gênio incompreendido.

Aumentou o volume do rádio. Pensou na esposa e na filha, em como eram uma família feliz. Estava sorrindo outra vez.

Capítulo 11

Ela acordou com o som das crianças ao seu redor. Todas com cara de interrogação e trocando murmúrios sobre quem era aquela mulher. Ao abrir os olhos, lembrou de novo onde estava. Sentiu o medo habitar seu corpo outra vez. Estremeceu.

Aos poucos, apoiou-se. Disse “oi” às crianças e perguntou pela polícia:

“Há policiais nesse vilarejo?”.

As crianças acenaram que sim com a cabeça e apontaram com um tímido “Ali”.

Ela se levantou de vez, sorriu e agradeceu. Seguiu andando mais uns 50 metros até uma viatura. Quando se aproximou, começou a gritar por ajuda:

“Socorro, eu e meu marido fomos atacados!”.

Os policiais se aproximaram. Ouviram a confusão de palavras que saíam da sua boca. Colocaram-na dentro da viatura e levaram-na até a delegacia.

No caminho, fizeram uma série de perguntas. Ela respondeu a cada uma como pôde. Tudo que se lembrava era do olhar da besta que havia atacado seu marido.

Capítulo 12

Depois de deixar a filha na escola, percorria uma curta distância até chegar ao trabalho. Todos os dias, ocupava a mesma vaga do estacionamento. Após parar, saía do carro e verificava se havia estacionado exatamente no centro da vaga.

Olhava para o carro com um sorriso no rosto, feliz pela perfeição e harmonia da sua baliza. Dificilmente errava. Então, fechava as portas e acionava o alarme.

Na caminhada entre o estacionamento e sua sala, gastava menos de cinco minutos. Entrava abrindo a maçaneta sempre com a mão direita. Para fechar a porta, sempre a mão esquerda.

Caminhava mais alguns passos até a janela. Abria a persiana para permitir a entrada do sol na sala e ligava o ar-condicionado.

Após esse ritual, sentava-se e virava a cadeira para a janela para admirar a paisagem. Sempre adorou o equilíbrio da natureza.

Capítulo 13

Na viatura, as lágrimas escorriam pelo seu rosto. Agora, o choro já era silencioso. Lembrou do enterro da mãe. O marido sentado a seu lado, enxugando suas lágrimas com uma das mãos e com a outra segurando suas próprias mãos. Lembrou das palavras dele naquele momento do passado.

“Vai ficar tudo bem. Amo você”.

A viatura parou. Chegaram à delegacia. Os policiais a retiraram do carro e encaminharam-na até a sala do delegado.

Quando ela entrou, a cadeira dele estava virada de costas para a porta.

Um dos policiais a amparava enquanto o outro foi conversar com o delegado, ainda de costas para ela. Quando ele girou a cadeira, ela olhou diretamente nos olhos dele. Teve uma intuição muito forte sobre aquele olhar, mas não deu ouvidos à própria consciência.

O delegado pediu que se sentasse e contasse toda a história novamente.

No momento em que se sentava diante do delegado, foi invadida por uma sensação de angústia. Teve que se segurar para não vomitar. Sentiu uma vertigem. Respirou fundo, sem entender direito por que seu corpo reagia daquela maneira. Já sentada, começou a falar.

Assim que terminou o relato, o delegado se levantou. Disse que iriam até a cena do crime. Pela descrição, disse saber onde era. Ele mesmo ficaria à frente daquele trabalho, foi o que disse aos oficiais.

Capítulo 14

Quando começou a ouvir aquele relato repleto de medo, quase deixou escapar um sorriso no rosto. Era o reconhecimento que tanto esperava. Sentiu-se orgulhoso. Aquele só podia ser um sinal de Deus de que estava no caminho certo. Trabalhando a serviço do Senhor.

Ao longo do relato, foi sendo invadido pela vaidade. Ficou excitado, quase salivando. Começou a sentir vontade de ir até a cena do crime outra vez. Somente com ela.

Assim, quando ela terminou seu depoimento, a besta se levantou e pediu que ela o acompanhasse até o local do crime. Olhou para os oficiais e disse que ele mesmo cuidaria do caso.

A caminho do carro, tirou o celular do bolso e fez uma ligação.

“Querida, não me espere pro almoço… Também amo você”.

Capítulo 15

O delegado dirigiu em silêncio até a cena do crime, um trajeto que levou cerca de duas horas. Após a descrição que ela dera sobre o lugar, ele não perguntou mais.

Sentada ao lado dele, ela também seguiu em silêncio, pensando em tudo que havia acontecido. A imagem da besta em cima do marido não saía da cabeça.

As lembranças se misturavam a uma sonolência. Cansada, chegou a apagar em alguns momentos. Era um sono quase incontrolável. Só despertou quando sentiu que o carro estava parando.

Capítulo 16

Ele gostava de plateia. Por isso, calculava tudo de forma que as mulheres pudessem vê-lo em ação. Esperava que elas se afastassem. Uma simples ida ao banheiro era a brecha que precisava. Sabia que elas voltariam a tempo de acompanhar o espetáculo. Depois, permitia que elas fugissem para contar o que haviam assistido.

Mesmo assim, era a primeira vez que isso acontecia, ficar cara a cara com uma vítima que havia assistido a um ataque. Estava ansioso. Imaginava que era assim que os ídolos deviam se sentir diante dos fãs.

Sentia vontade de revelar quem era, mas não queria simplesmente entrar em ação. Pensava em como poderia criar um clima para sua entrada triunfal. Refletindo sobre essas possibilidades, acabou dirigindo por todo o caminho sem pronunciar uma palavra.

A alguns metros da cena do crime, parou o carro, desligou o motor e abriu a janela do seu lado. A poeira que o carro levantara ainda voava. Tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. Destravou as portas e desceu do carro. Com um aceno de cabeça, dirigiu-se a ela.

“Por favor, a senhora pode me mostrar onde tudo aconteceu?”.

Capítulo 17

Ela desceu do carro com o coração acelerado. Na mata, não havia mais vestígio de que alguém tivesse passado por ali. Nenhum sinal do marido. Apenas o chão seguia manchado com um vermelho que parecia sangue. Ela apontou para o chão e disse que tinha sido ali.

O delegado tirou o celular do bolso e bateu algumas fotos. Apenas isso.

Um clima de tensão tomava o ar. Sem falar uma palavra, o delegado voltou para o carro e abriu o porta-malas com a mão direita. Em câmera lenta, fechou o porta-malas com a mão esquerda. Na outra, dois objetos: uma máscara e um machado. Colocou a máscara e olhou nos olhos dela.

Capítulo 18

Ao olhar nos olhos da besta, seu corpo todo estremeceu. Ela sentiu um misto de medo e fúria, vontade de chorar e gritar. Teve raiva de si mesma por não ter dado ouvidos à intuição quando entrou na sala do delegado. Começou a chorar e correu mata adentro.

Ela correu o máximo que conseguiu. Sabia que não podia parar. De longe, ouvia os passos da besta andando pela mata. A respiração dela estava ofegante. Pensava em como iria se defender. No que iria fazer.

Exausta, logo precisou parar para recuperar o fôlego. Pensou que pudesse se esconder. Se ficasse em silêncio, poderia despistá-lo. Parou e se agachou atrás de uma árvore. Em pensamento, dizia para si mesma que precisava manter a calma se quisesse sair viva dali.

“Calma, você precisa se acalmar. Respire fundo”.

Ainda podia ouvir os passos dele. Achou que ele sentia prazer em tudo aquilo, caçar a vítima. Parecia que, de maneira calculada, agia devagar. Alimentava-se do medo dela. Pensou em quanto tempo havia espreitado ela e o marido até o momento do ataque.

Fechou os olhos por alguns segundos. Tentou pensar em alguma lembrança que lhe tirasse dali. Lembrou-se de quando era criança e brincava de esconde esconde. A mãe abria contagem e ela corria para se esconder no jardim. Mas, agora, os passos que ouvia não eram os da mãe.

Capítulo 19

Ao vê-la correr de medo, sentia-se como um animal que vai à caça. Acelerou o passo e começou a ir atrás dela. Sabia que ela estava cansada e não iria longe. Logo, parou de ouvir seus passos e soube que ela havia parado. Sabia que estava perto.

Pela primeira vez, atacaria uma vítima que sabia da sua presença. Ansioso, sentiu o coração acelerar. Começou a caminhar lentamente, tentando farejar de onde vinha o medo.

Capítulo 20

Abriu os olhos com o barulho do caminhar da besta pela vegetação. A primeira coisa que viu foi uma pedra pontiaguda ao lado dos pés. Pego-a com a mão direita. Ouvia os passos cada vez mais próximos. O coração estava acelerado. O corpo tremia com aquela sensação de ansiedade.

Agora, pensava numa maneira de matá-lo com aquela pedra. O que faria? Como faria? Perguntou-se se de fato teria coragem. Lembrou da imagem da besta inclinada sobre o marido. Todo aquele sangue e horror. Teve certeza que sim.

Os passos dele pareciam estar ficando mais lentos à medida que se aproximava. Ela segurou a respiração quando sentiu a presença da besta. Em câmera lenta, colocou-se de pé. Quando a besta passou pela árvore e ficou de costas para ela, soube que era o momento.

Com toda força que tinha, levou a mão direita para trás e, com um golpe, cravou a pedra pontiaguda na parte de trás da cabeça da besta. Ouviu o barulho do crânio quebrando. A besta largou o machado e caiu devagar, de frente no chão. Já deitado, uma poça de sangue começou a se formar ao redor de sua cabeça.

Capítulo 21

A pancada que recebeu foi tão violenta, que mal teve chance de entender o que tinha acontecido. Também não houve tempo de realizar que estava à beira da morte. Apenas um flash de imagem da esposa e da filha passou pelos seus olhos enquanto caía no chão. Já caiu morto.

Capítulo 22

Ao ver a besta cair, largou a pedra no mato e começou a correr em disparada. Sentia um ar de maldade naquele lugar. Correu o quanto pôde, mais uma vez, sem olhar para trás. Assim como havia feito na noite anterior.

Irrompeu num choro desesperado por tudo que havia acontecido. Enquanto corria desesperada, tropeçou num galho e caiu. Na queda, bateu a cabeça no chão e desmaiou.

Quando abriu os olhos de novo, o marido fazia um carinho em seu rosto.

“Amor, acorde”.

Por um momento, pensou se aquilo era uma lembrança ou um sonho.

“Querida, já está tudo pronto. Quando quiser, partiremos para nossa viagem”.

“É você mesmo? Está vivo?”.

O marido começou a sorrir.

“Claro que sim. Sonhou que eu tivesse morrido?”, perguntou em tom de brincadeira.

Ela começou a chorar. Agora, de alegria e de alívio. Deixou-se cair nos braços dele e respirou fundo.

“Apenas me abraça”.

Fim

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2 comentários sobre “Reflexão nº 15 – Um conto de suspense

  1. Parabéns, Rafael. Já tinha lido antes, mas deixo aqui publicamente que minhas partes favoritas são os excelentes momentos de suspense (especialmente quando ele abre o porta-malas) e as lembranças que ela vai tendo ao longo da história. Agora pode transformar em livro que eu serei uma das primeiras a comprar 🙂

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