Reflexão nº 13 – “Judas” e um jovem em busca de sentido

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Mais adiante, numa curva do caminho, aquela figueira morta está me aguardando. Eu examino cuidadosamente galho por galho, encontro o galho certo e amarro nele a corda, “Judas”, Amós Oz.

Ele tinha certeza que veria o amigo que tanto amava descer da cruz. Por isso, convenceu Jesus a sair da Galileia e rumar com destino a Jerusalém. A libertação da crucificação seria mais um entre tantos milagres que já presenciara o amigo fazer.

Mas não foi isso que aconteceu. As coisas não saíram como Judas imaginara. Pelo contrário, ele viu o amigo sofrer na cruz. Então, questionou a própria fé. Se perguntou se Jesus era de fato filho de Deus. Se ele fosse um homem comum, isso não fazia com que amasse menos o amigo, mas lhe trazia uma culpa imensa pensar que o havia empurrado do precipício.

O sentimento de culpa recaiu sobre sua cabeça de maneira tão forte que atentou contra a própria vida. Não pôde suportar o fato de que teve participação direta naquele sofrimento. Não por meio de uma traição, mas por ter convencido o próprio amigo Jesus de que ele se libertaria da crucificação.

Essa é a perspectiva que o escritor e ativista político israelense Amós Oz defende no livro “Judas” (2014, Companhia das Letras), uma visão bem diferente da popularmente conhecida.

A narrativa se passa em Jerusalém, no inverno de 1959. No livro, o personagem principal, Shmuel Asch, é um jovem em busca de sentido. Em meio a um turbilhão de conflitos pessoais, ele está realizando um trabalho de pós-graduação sobre “Jesus na visão dos judeus”. Suas descobertas o levam a crer que Judas teria sido o apóstolo que mais acreditou em Jesus.

“Quanta ironia há nisso, escreveu Shmuel em seu caderno, que o primeiro e último cristão, o único cristão que não abandonou Jesus nem por um momento e não o renegou, o único cristão que acreditou na divindade de Jesus até seus últimos instantes na cruz, (…) exatamente ele foi considerado por centenas de milhões de pessoas em cinco continentes e durante milhares de anos como o mais típico dos judeus. (…) A encarnação da traição (…)”.

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Ao longo do livro, ele percorre uma trajetória de redescobertas e reflexões que, na minha visão, o levam a seu renascimento. Ainda que para o mundo a sua volta pareça estar tudo mal com ele, internamente vai acontecendo um processo de transformação. Shmuel parece manter dentro de si um idealismo e uma esperança que guiam sua trajetória.

Uma energia que o ressuscita nos momentos em que ele próprio parece estar entregando os pontos. Aos poucos, me parece que ele recupera a fé na vida. Um personagem que me soa bem humano, me parece bastante real. Uma boa leitura.

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar.

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