Reflexão nº 12 – Liberdade: alçando voos mais altos

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Eu estava de férias do Santos FC quando subi o morro naquela tarde, tinha tempo livre para pensar e fazer o que eu quisesse por cerca de 15 dias (Muita coisa, não é mesmo?!). Naquele período, 15 dias para fazer isso era muito tempo. Tempo pra caramba!

Quando cheguei lá em cima encontrei um amigo. Foi mero acaso, pura coincidência. Ele estava fazendo uma matéria sobre voo livre. Foi assim que eu conheci o Eládio, o Vovô.

No breve papo que tive com ele naquele dia, recebi o convite para fazer um voo duplo. Eu sempre tive medo de altura, mas encarar esse medo de frente me dava um frio gostoso na barriga. O medo me puxava para aquele desafio. Significava vencer a mim mesmo. Além disso, aquela experiência parecia libertadora. Ia ao encontro da busca que eu já iniciara. Seria um momento único, eu não tinha dúvida.

Meu primeiro voo aconteceu num dia 25 de dezembro. Valeu como presente de Natal. Liguei para o Vovô por rádio e ele disse: “Pode vir”.

Fiquei bastante ansioso quando estava prestes a decolar de paraglider com ele. Aquele era uma momento surreal. Eu mal podia acreditar que estava acontecendo.

É impressionante como olhar a terra de cima muda nossa perspectiva (fiz a foto do início desse texto durante aquele voo). Nos dá uma pequena dimensão da imensidão do mundo. Faz com que problemas gigantes se tornem tão pequeninos quanto os carros e as pessoas vistas do céu. Foi uma experiência incrível. Excitante.

Mesmo com toda essa emoção, eu demorei um ano para voltar lá. Impressionante como a vida passa num piscar de olhos se a gente liga o piloto automático.

Quando voltei ao morro, estava em busca daquela sensação libertadora de novo. Mas, agora, queria me preparar para voar sozinho. Procurei o Vovô para um curso de voo livre.

Realizei as aulas teóricas e treinos com o paraglider na rampa do morro e na pista que fica no jardim da orla da praia do Itararé, em São Vicente. Também fizemos mais um voo duplo, só que, dessa vez, o Vovô permitiu que eu controlasse o paraglider por alguns momentos.

Depois de toda essa preparação, o Eládio decidiu que eu estava preparado. Ele não me falou nada, mas eu sentia e sabia disso. Por isso, naquela tarde em que meu corpo achou que partia para mais um treino na rampa, minha alma sabia que está prestes a voar.

Logo percebi que o Eládio estava me equipando mais do que o usual. Eu sabia que aquele não era o paraglider que usávamos para treinar, mas tentei manter a calma e o silêncio.

Já na rampa, ouvi ele falar para um cara que aquele seria meu primeiro voo. A ficha caiu de vez. Meu coração acelerou. Tive medo.

Eu: “Vovô, não estou preparado”.

Eládio: “Está sim. Confia em mim. Lembra do que te falei, o voo já está na sua cabeça”.

O Vovô tem uma teoria de que o voo livre já está na nossa cabeça. Tudo que ele faz é resgatar o que já sabemos e trazer à tona para nos preparar. As técnicas são transmitidas por ele, mas o processo intuitivo é com a gente.

Lembro de sentir o vento no rosto quando decolei. Aquele momento foi sublime e, ao mesmo tempo, surreal. Eu mal conseguia acreditar no que estava realizando. Estava me superando. Realizando um feito para contar aos filhos, aos netos. Queria gritar, chorar, comemorar. Mas fiquei calado, quase congelado.

Só um detalhe podia ter atrapalhado aquela lembrança. Quando decolei, meu rádio saiu da frequência. Fiquei sem comunicação com o Eládio. Ainda levei uns minutos para realizar: “Como vou pousar?”.

Para minha sorte, estava com o Nextel no bolso. Para minha sorte pela segunda vez, havia deixado ele no viva-voz. Foi um alento ouvir a voz do Vovô me dando as coordenadas de pouso. Aterrissei na areia. Me sentindo como um astronauta que volta depois de conhecer a Lua.

Talvez aquela falha no rádio tenha sido apenas uma brincadeira de Deus para me deixar apenas comigo mesmo por alguns instantes lá em cima. Ter meu momento sem interferências.

Depois daquele voo, ainda fiz mais quatro. Todos com dois rádios.

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