Reflexão n° 10 – “Ensaio sobre a cegueira”

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“A vida não é medida pelo número de vezes que respiramos, mas pelos lugares e momentos capazes de tirar nosso fôlego” (Anônimo)

Eu fiquei com a respiração ofegante quando ele passou por mim. Eu já estava um pouco receoso. Aquele estava sendo um momento de descobertas. Estava um pouco inseguro, ainda conhecendo aquele novo mundo, como um colonizador que desembarca em terras desconhecidas.

Ele quase “atropelou” o menino que estava do meu lado. E também passou bem perto de mim. Isso me deixou ainda mais assustado. Na volta, ele acabou me alcançando. Remamos lado a lado. Eu ainda estava receoso e, ao mesmo tempo, surpreso.

O menino que ele quase “atropelou” não sabia que ele é cego. Eu sim. Tinha visto o cuidado com o qual ele e os amigos entravam na água. E também tínhamos batido um papo rápido com os amigos dele. Nós de São Paulo (Éramos em quatro: eu, Alexandre, Eric e Tiago). Eles do sul do Brasil. Todos ali pela mesma razão. Las Flores é um playground para meninos crescidos. Um paraíso ainda pouco explorado em El Salvador, na América Central.

Aquela viagem teve muitos momentos de reflexão. Muitas experiências novas dentro e fora da água. O encontro com o Figue foi um desses momentos. No breve diálogo que tivemos enquanto remamos lado a lado, ele mencionou o tamanho das ondas. Não a que ele tinha surfado, mas as ondas que estávamos tomando na cabeça naquela remada para o outside. “Estão vindo boas ondas aqui na intermediária, né?!”.

Nosso diálogo começou porque fiquei com receio de como ele ia passar pelas ondas sem enxergá-las. Instintivamente, quando elas se aproximaram, gritei: “Pra fora! Rema pra fora!”.

A minha mensagem não foi nada precisa, mas ele agradeceu e falamos brevemente. O que mais me impressionou naquela conversa foi ele mencionar o tamanho das ondas. Fiquei me perguntando como ele poderia saber. Essa pergunta ecoou na minha cabeça durante um tempo.

Descobri a resposta durante minha própria busca por evolução. Precisei entender que a questão não se trata de enxergar as ondas, mas de sentí-las e entrar em conexão com elas. Meu centro precisa estar em sintonia e harmonia com a onda. Na verdade, meu centro precisa estar em sintonia e harmonia com a vida.

Mas eu tive meu próprio tempo de maturação. Levei quase dez anos para começar a surfar com a prancha certa. Durante essa viagem para El Salvador, um amigo, o Tiago, me sugeriu buscar pranchas retrôs. Ele achava que elas tinham mais a ver com minha forma de surfar. Dei ouvidos a ele e tive uma feliz surpresa. Uma bela redescoberta. Me apaixonei de novo por algo que já praticava há anos. Mudei meu olhar e meu foco também. Passei a alimentar uma busca interna por evolução no esporte.

Nesse mesmo período, eu já vinha há algum tempo me perguntando sobre o verdadeiro sentido que queria dar à minha vida. Eu finalmente começava a encontrar as respostas. E é interessante que isso tenha se refletido no surf. Na verdade, era apenas uma questão de estar aberto ao novo, novas experiências, sem preconceitos. Mudar de prancha foi apenas uma das portas do novo que eu decidi abrir.

De muitas maneiras, minha intuição já havia me dito aquilo, mas eu insistia em surfar com a mesma prancha e da mesma maneira. Pior do que isso, eu estava fazendo o mesmo com a minha própria vida. Surfando com a prancha errada e da maneira errada.

Decidi mudar de prancha ao mesmo tempo que decidi mudar de vida. Ou vice-versa. Impressionante como tudo está conectado no Universo. Processos micros. Processos macros. E, definitivamente, só depende de nós exercer o movimento de mudança. Uma atitude que começa internamente, na forma de ver a vida, de pensar, e acaba se externando através de nossas ações.

É interessante que enquanto tentei viver com a mesma leveza que surfo, a equação nunca se resolveu. Nunca cheguei no resultado que queria. Só consegui resolver a equação quando inverti a ordem dos fatores. Surfar com a mesma leveza que vivo. O surf ocupa uma parcela importante da minha vida, mas não o todo.

Carl Sagan tem razão, somos errantes. Nem sempre em busca de outros planetas, mas, certamente, à procura do nosso lugar por aqui.

Sobre o autor: Rafael Miramoto, 30 anos. Alguém que gosta de estudar, refletir e compartilhar.

Obs. 1: tomei emprestada a expressão de Saramago (que dá título a esse texto) pois ela sintetiza o significado que essa reflexão tem para mim. Qualquer tentativa minha de criar uma nova expressão não chegaria nem perto.

Obs. 2: A citação do início do texto foi sugestão do blog Loucos por férias. Obrigado!

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